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Lancetando velhos tumores

Lancetando velhos tumores

A roubalheira gigantesca ocorre em esquemas montados há muitos anos – alguns, há várias décadas. Há máfias operantes em praticamente todos os setores da vida nacional.

Os maiores escândalos de corrupção que tanto chocam os brasileiros comuns se tornaram escândalos por uma única razão: foram revelados em toda a sua imensidão e mau cheiro a partir da Operação Lava-Jato.  A realidade, porém, é que a roubalheira gigantesca ocorre em esquemas montados há muitos anos – alguns, há várias décadas. 

É o caso, por exemplo, das empresas de ônibus do Rio de Janeiro, cuja organização criminosa existe há pelo menos 40 anos – é esse o tempo em que, como velho jornalista, tenho informações seguras de que o compadrio criminoso entre empresas de ônibus e autoridades municipais e estaduais corroem o Rio de Janeiro e sua capital. 

É um esquema tão poderoso, tão forte, tão antigo e azeitado que envolve assassinatos e compra de governadores, prefeitos, os legislativos do estado e do município e o Judiciário local.  Há máfias operantes em praticamente todos os setores da vida nacional, desde a merenda escolar dos municípios até a Receita Federal e as licitações públicas.   

As máfias funcionam nos concursos públicos, na aquisição de medicamentos pelo governo, na publicidade oficial e na simples compra de móveis e objetos de escritório para repartições públicas, no Executivo, no Legislativo e no Judiciário, nos três níveis de administração pública. Na elaboração de leis e medidas provisórias. Nas decisões de juízes de todas as instâncias. 

Todo mundo sempre soube. No mínimo, desconfiou.  Por que, então, ficamos chocados agora? Simplesmente porque tudo foi exposto de forma didática e por atacado a partir da Operação Lava-Jato, a inimiga pública dos homens e mulheres públicos corruptos e que, claro, tem seus defeitos e exageros, mas é fundamental. 

A corrupção generalizada no Brasil é como um tumor infeccionado que, de repente, foi lancetado. A ferida que então vemos exposta é assustadora, mas é esse o caminho para a cura, para a desinfecção. Demora, dói, é muito feio, dá febre, mas é o único caminho.  

As reações são variadas, e a mais curiosa é a da chamada “esquerda” brasileira, que busca de forma desesperada desmoralizar as investigações e acabar com tudo, porque os fins justificam os meios. A indignação vale apenas contra a turma do PMDB, do PSDB e dos outros partidos menores. A esquerda pode roubar. 

Juízes de tribunais superiores

A outra reação patológica é dos próprios juízes de tribunais superiores, alguns por ligações inconfessáveis, outros por medo de “choques entre poderes”, que poderiam levar a “crises institucionais” – se é que isso pode ser considerado uma explicação aceitável. 

Alguns membros do STF, por exemplo, vêm anunciando há meses, de forma experimental, que “pode mudar o entendimento da Corte sobre a prisão de condenados em segunda instância”. Não existe cinismo maior. Outro semideus togado, Ricardo Lewandowski, quer anular de vez as delações premiadas. E na marra, contrariando decisão do Pleno do Tribunal. 

Vai demorar, vai ser doloroso, vai ser penoso, mas o país está mudando, é o que se espera.  Tudo isso veio a céu aberto, como uma rede de esgotos rompida. O Brasil agora sabe como funcionam as coisas e conhece boa parte dos criminosos, e é preciso buscar os caminhos para uma limpeza geral. Mas sem “salvadores da pátria” ou aventuras autoritárias. A democracia e as instituições são o remédio. 

As instituições precisam ser saneadas e fortalecidas para que tenham sua credibilidade e sua legitimidade restauradas. O mais difícil é o Judiciário, porque continua uma caixa-preta da nossa democracia. Quem investiga uma decisão estranha de um ministro do STF ou do STJ? 

Em abril de 1999, instalou-se no Senado Federal uma CPI para apurar irregularidades no Judiciário, com base em cinco denúncias. A principal era a corrupção ostensiva nas obras de construção da nova sede do Tribunal Regional do Trabalho, em São Paulo, sob o comando do então juiz Nicolau dos Santos Neto. 

O então senador Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA), que requereu a abertura da investigação, e o relator da CPI, senador Paulo Souto (idem), queriam que a CPI fosse como pólvora atirada em incêndio, que puxasse o novelo de todo o Judiciário, inclusive nos tribunais superiores.  

O trabalho resultou apenas na cassação e na prisão do senador Luiz Estêvão, dono da empresa que fez a obra, e do juiz Nicolau, dito “Lalau”. Os anticorpos funcionaram vigorosamente e protegeram os barões do Judiciário.  Vamos ver o que acontecerá agora depois da Lava-Jato.

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