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Vai que... quando o destino muda a sucessão nas empresas

Luiz Carlos Trabuco Luiz Carlos Trabuco

O trágico acidente que vitimou o presidente da Bradesco Seguros, Marco Antônio Rossi e o presidente da Bradesco Vida e Previdência, Lúcio Flávio Candurú, vai ter impacto direto no comando do maior grupo segurador da América Latina e do segundo conglomerado financeiro privado do país.

Sucessor do atual presidente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco, quando este foi incensado da seguradora para o comando do Banco, em março de 2008, Rossi, que veio da Vida e Previdência, a joia da coroa do grupo segurador, era também vice-presidente do Banco e estava cotado para dirigir o Bradesco em março de 2017, quando Trabuco, que nasceu em Marília (como o Bradesco, em 1943) atinge a idade limite dos diretores executivos.

As credenciais de Rossi (54 anos, com 34 de atuação no grupo Bradesco) eram seu dinamismo ä frente do grupo segurador, onde fez várias inovações, e a garantia de prover, há quase uma década, 30% do lucro líquido do conglomerado (mesmo quando só dirigia a Bradesco Vida e Previdência). A consternação é total no Bradesco e na seguradora, cuja sucessão seria provavelmente exercida por Lúcio Flávio, caso Rossi ascendesse ao comando do banco. A tristeza é maior na família Bradesco pois, no fim deste mês, Marco Antonio Rossi estaria no Rio de Janeiro para a grandiosa inauguração da Árvore de Natal da Bradesco Seguros. Desta vez, os fogos e a celebração da família brasileira na Lagoa Rodrigo de Freitas terão menos brilho e um gosto amargo de saudade. Tive o prazer de colaborar em projetos de Trabuco e Rossi à frente da Bradesco Seguros e rendo sentidas homenagens à família Bradesco.

As peças que o destino prega nas sucessões empresariais brasileiras são antigas. Lembro do trágico falecimento, no final dos anos 80, dos irmãos Thomaz Edison de Andrade Vieira e Cláudio Enoch de Andrade Vieira, respectivamente, presidente e vice do banco fundado no Paraná por Avelino de Andrade Vieira, também em acidente de avião. Thomaz Edison, feito seu sucessor, era tido como o "novo Amador Aguiar" do mercado bancário brasileiro. E já tinham preparado um sucessor, o irmão Marcos de Andrade Vieira, jovem talento que morreu de enfarte com menos de 40 anos, quando presidia a Nossa Caixa,no governo Paulo Maluf.

Sem sucessores diretos na família, o comando do Bamerindus caiu nas mãos de José Eduardo de Andrade Vieira, que nunca chegara antes a uma das diretorias do banco. Após alguns altos e baixos, Vieira recusou uma negociação com o HSBC, o banco foi liquidado em 1995. O HSBC assumiu a parte boa (a parte podre, o antigo Banco Sistema foi comprada em 2014 por André Esteves, do BTG Pactual, para gerar prejuízo dedutível), e o Bradesco comprou o HSBC Brasil em agosto por US$ 5,2 bilhões, na tentativa de se reaproximar do Itaú.

Por sinal, o Itaú, fundado dois anos depois do Bradesco, em 1945, também terá de promover até 2017 a sucessão de Roberto Setúbal. Três a quatro nomes se destacam: os vice-presidentes Marcio Schettini, Marco Bonomi, Ricardo Villela Marino, representante da família Eudoro Villela, dona da Duratex e da Decca, que co-fundou o banco em 1945 e chamou o sobrinho engenheiro Olavo Egídio Setúbal para dirigir aquele que viria a ser o maior banco privado do país, quando se associou ao Unibanco, em 2008, também com problemas de sucessão pela doença de Pedro Moreira Salles.

Outro acidente aeronáutico, curiosamente tirou a vida de um dos grandes pioneiros da aviação brasileira, o Comandante Rolim Amaro, fundador da TAM, também de Marília, como o Bradesco. Mas, no acidente, em 2001, Rolim caiu quando pilotava um helicóptero na fronteira do Brasil dom o Paraguai. Muito provavelmente a TAM voaria alto, mas poderia ter outra trajetória com Rolim no comando, pois não havia sucessores diretos na família.

Outro acidente aéreo interferiu diretamente no grupo goiano Mabel, que se subdividiu entre os herdeiros. O grupo Maeda, que chegou a ser um gigante na produção de algodão, grãos e cana também entrou em crise com a morte do fundador nos anos 90.

Dois outros acidentes fatais - de carro - tiraram a vida de dois grandes empreendedores brasileiros. No primeiro, nos anos 80, perdeu a vida o casal Sérgio Gregori. O empresário comandava a Xerox do Brasil, o Banco Crefisul e a Editora José Olympio, entre outros negócios. O segundo vitimou o engenheiro Octávio Lacombe, presidente e fundador da Paranapanema, originalmente uma empreiteira que descobriu nas maiores minas de cassiterita na Amazônia, virou uma das vedetes da Bovespa e quebrou o cartel de Estanho na Bolsa de Metais de Londres ao praticar preços à margem dos combinados pelo cartel.

Lacombe foi perseguido e ameaçado, a ponto de sua família ter suspeitado que a capotagem de seu carro a cerca de 100 km/hora não teria sido causada apenas pelo estouro de um dos pneus, que a perícia comprovou. Após a morte de Lacombe, a Paranapanema perdeu o élan, o foco, acabou seu comprada por um pool de fundos de pensão liderados pelo Previ (BB).

Na falta de uma clara e definida política de governança corporativa, vários grandes grupos empresariais brasileiros, que não completaram a passagem da estrutura familiar para a de uma grande S.A., acabam entrando em crise. Os problemas recentes do grupo Votorantim, após a doença e posterior morte de Antonio Ermirio de Moraes (51% do banco foram comprados pelo BB e a Votorantim Celulose naufragou na crise de 2008-09, sendo absorvida junto com a Aracruz na Fibria, liderada pelo grupo Suzano, com apoio do BNDES), estão aí para chamar a atenção de todos.

Dono de um dos maiores grupos siderúrgicos do mundo, com atuação na Argentina e nos EUA, Jorge Gerdau Johanpetter encaminhou a sucessão para o filho, André, em 2006. No setor público, na falta de uma forte prática de governança corporativa, os problemas se sucedem a cada troca de governo e de mudança na diretoria.

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