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Taxa de juros e indecência

Taxa de juros e indecência

Bancos estão aproveitando a queda dos juros para aumentar as margens de ganhos sobre os clientes. Mais uma vez, as famílias e as pessoas estão sendo as galinhas dos ovos de ouro do sistema financeiro.

O Banco Central divulgou hoje um resumo do mercado de crédito brasileiro em outubro. Um dos tópicos tem o título de “Taxas de juros e inadimplência”. Eu preferiria chamar de “Taxas de juros e indecência”. É que a Taxa Selic, que serve de piso à captação do sistema financeiro (depósitos a prazo e de poupança), caiu de 8,25% para 7,50% ao ano, no fim do mês passado (decisão de 25 de outubro), e em outubro de 2016 havia recuado de 14,25% para 14% a.a.. Os depósitos à vista não pagam juros, mas sofrem recolhimento compulsório de 45%. Já os CDBs e poupança recolhem, respectivamente, 36% e 21%, mas os recursos podem ser aplicados em títulos públicos, com a remuneração básica da própria Selic (não há tanta perda assim...).

Pois é, a Selic caiu em um ano 6,75 p.p.. Ou seja, o custo de captação já caiu 6,75 p.p. em 12 meses. No mesmo período, a inflação em 12 meses, medida pelo IPCA, despencou de 7,87% para 2,70%. Uma queda de 5,17 p.p. Agora, você sabe quanto caiu o juro médio das operações de empréstimo do sistema financeiro nacional no mesmo período? Quem explica, candidamente, é o próprio Banco Central:

“Em outubro, o custo médio das operações de crédito ativas, aferido pelo Indicador de Custo do Crédito (ICC), manteve-se estável em 21,8% a.a. (-1,4 p.p em 12 meses). Tanto no segmento de crédito livre quanto no direcionado, o indicador também apresentou estabilidade, situando-se em 35,9% a.a. e 8,9% a.a. respectivamente.

“A taxa média de juros das operações de crédito do sistema financeiro, consideradas as contratações com recursos livres e direcionados, alcançou 27,4% a.a. em outubro (variações de +0,4 p.p. no mês e -6,0 p.p. em 12 meses). No crédito livre, o custo médio atingiu 43,6% a.a. (+0,3 p.p. e -10,6 p.p., respectivamente), enquanto no direcionado situou-se em 9,8% a.a., após variações de +0,5 p.p. e -1,1 p.p., nos mesmos períodos.

“Nas operações com pessoas físicas, a taxa média alcançou 34,2% a.a., após elevação de 0,3 p.p. no mês (-8,9 p.p. em 12 meses). Nas contratações com recursos livres, o indicador alcançou 59,5% a.a. (+0,3 p.p. no mês), refletindo aumentos em cartão rotativo não regular: +14,4 p.p.; cheque especial: +2,4 p.p. e crédito pessoal não consignado: +4,7 p.p. No crédito direcionado, o custo médio às famílias situou-se em 8,5% a.a. (+0,1 p.p.).” Detalhe: apesar da nova queda dos juros básicos, houve como resposta a alta dos juros bancários pelo sistema financeiro!

“Nos empréstimos às empresas, a taxa média de juros situou-se em 18% a.a. (+0,5 p.p. no mês e -3,6 p.p. em 12 meses). Na carteira livre, a taxa alcançou 23,3% a.a, +0,1 p.p. no mês (antecipações faturas de cartão: +4,1 p.p., cartão rotativo: +13,9 p.p.). No crédito direcionado, o custo médio alcançou 11,7% a.a. (+1 p.p.), com elevação de 1,3 p.p. em financiamentos para investimentos do BNDES.

“O spread bancário referente às contratações com recursos livres e direcionados aumentou 0,5 p.p. no mês, para 20,7 p.p. em outubro (ante 24,0 p.p. em outubro de 2016). Os indicadores relativos aos segmentos de pessoas jurídicas e físicas aumentaram 0,5 p.p. e 0,4 p.p. no mês, respectivamente, para 11 p.p. e 27,6 p.p. (recuos de 1,2 p.p. e 6,1 p.p. em 12 meses). No crédito livre, o spread aumentou 0,3 p.p., para 35,4 p.p., enquanto no direcionado houve elevação de 0,6 p.p., para 4,6 p.p.

Taxa de inadimplência da carteira

“A taxa de inadimplência da carteira de crédito do sistema financeiro, referente a atrasos superiores a noventa dias, alcançou 3,6%, revelando estabilidade em outubro e redução de 0,3 p.p. no período de 12 meses. No segmento de famílias, o nível de atrasos manteve-se em 3,9%, pelo quarto mês consecutivo, enquanto no de empresas ocorreu aumento de 0,1 p.p., para 3,4% em outubro.”

Ou seja, em um ano, o spread bancário (a diferença entre a taxa média de captação e a taxa média de aplicação dos bancos) caiu apenas de 24,0 p.p. , em outubro de 2016, para 20,7 p.p., em outubro de 2017. Em termos, efetivos, uma baixa de apenas 3,3 p.p. para os tomadores de crédito. Só que, no mesmo período, os bancos tiveram uma queda de 6,75 pontos percentuais no custo de captação em reais!. Em outras palavras, estão aproveitando a queda dos juros para aumentar as margens de ganhos sobre os clientes!

O absurdo é que nesses 12 meses as operações gerais do SFN (R$ 3,052 trilhões) encolheram 1,4%. Mas o encolhimento foi principalmente nas operações com o setor empresarial. As operações com pessoas jurídicas, com saldo de R$ 1,425 trilhões, tiveram queda de 0,5% no mês e de 8,3% em 12 meses, nos mesmos períodos. Em outubro, as operações com as pessoas físicas aumentaram 0,1%, acumulando alta de 5,6% em 12 meses. As operações com pessoas físicas já respondem por mais da clientela dos bancos e financeiras (53,3%), num total de R$ 1,627 trilhão. E sabe quanto aumentaram no mês? O dobro da inflação (0,34% pelo IPCA), atingindo +0,7% no mês e +5,6% em 12 meses!  

Mais uma vez, as famílias e as pessoas estão sendo as galinhas dos ovos de ouro do SFN. O resultado de empurrar mais crédito caro para as famílias já endividadas é que a inadimplência das famílias segue estacionada na taxa média de 3,9%, enquanto nas empresas está em 3,4%.

Agora, para terminar o escândalo, vocês sabem qual a taxa média cobrada pela Financeira Crefisa, aquela que patrocina o simpático Palmeiras e oferece crédito até para quem está negativado nas transmissões esportivas da Globo (é patrocinadora também dos dois principais noticiários da emissora – JN e JG, além da GloboNews)? No levantamento feito pelo BC entre os dias 3 e 9 de novembro é a segunda mais alta:

731,26%! (Nos grandes bancos está entre 70% e 118% ao ano.) Precisa desenhar?

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