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Escalada do dólar faz estrago em bancos, empresas e famílias

Escalada do dólar faz estrago em bancos, empresas e famílias

A escalada do dólar em 30% neste trimestre (que termina dia 30), com a cotação rompendo a barreira dos R$ 4,13, está trazendo pânico aos investidores na Bovespa e aos gestores de dívida, incluindo as famílias e principalmente os bancos que sempre usaram o funding da captação de recursos em moeda estrangeira para reemprestar a empresas e pessoas físicas no país.

O temor dos analistas é de que as empresas e bancos brasileiros repitam os prejuízos bilionários do fim de 2008, quando a súbita alta do dólar colheu no contrapé bancos e empresas exportadoras que fizeram hedge para proteger as vendas das exportações e perderam bilhões. O resultado seguinte foi uma onda de fusões e incorporações na área de celulose, mineração e petroquímica, além da quebra de alguns bancos.

O nervosismo amainou um pouco com a decisão do Congresso de manter ontem 26 dos 32 vetos da Presidente Dilma a medidas que poderiam arruinar o já difícil ajuste fiscal, com gastos adicionais de R$ 128 bilhões em 2016. O único grande impasse é ainda com relação ao reajuste dos servidores do Judiciário em até 78%, que poderia gerar um efeito cascata em toda a administração pública, incluindo estados e municípios. Certamente a capacidade de reação do governo vai pesar favoravelmente na reunião que os técnicos da agência de classificação de risco Ficht terão hoje em Brasília, com o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini. A Ficht ainda mantém o Brasil duas notas acima do grau de risco. A Standard&Poor’s tirou o grau de investimento do Brasil. E a Moody’s mantém a classificação do país um grau acima. A ameaça de rebaixamento é um dos fatores de pressão no dólar, além da necessidade de empresas e bancos cobrirem suas posições. Portanto, é possível que o BC volte a oferecer dólares até o fechamento do mês.

O Banco Central revelou hoje o movimento dos empréstimos do Sistema Financeiro Nacional, com queda de 4% em agosto. Há muito tempo não ocorre redução de empréstimo, num indício de que os bancos privados, cautelosos, estão trancando as carteiras de crédito. Os empréstimos só cresceram nos bancos públicos e no crédito consignado. Em matéria de nível dos juros, as operações com cartões de crédito atingiram a média de 403,5% ao ano. Um absurdo, considerando a expectativa de inflação para 7% nos próximos 12 meses e o nível atual de 14,25% ao ano na taxa básica (Selic).

As famílias aumentaram em apenas 0,8% o saldo de seus créditos. Considerando os juros médios das operações a taxas livres subiram de 59,8% em julho para 61,2% em agosto (a maior taxa desde março de 2011), houve, na prática, redução real do endividamento, pois o montante cresceu pelo impacto das taxas de juros, não por aumento do valor principal contratado, o que é preocupante. A inadimplência aumentou de 3,7% para 3,8% entre as pessoas físicas e ficou estável em 2,4% nas empresas.

O crédito direcionado para as famílias – crédito rural e habitacional – teve o custo reduzido em 0,2% em agosto, para 9,8%. Mas a alegria durará pouco. Os financiamentos oficiais sempre mais baratos, também vão ficar mais caros para quem pretende tornar a travessia da recessão mais suave. Os aumentos vão atingir quem deseja tomar empréstimos para a compra da casa própria na Caixa Econômica Federal e junto ao BNDES. A CEF anunciou o terceiro aumento das suas taxas de financiamento habitacional este ano. A partir de 1º de outubro, as operações de financiamento pelo Sistema Financeiro da Habitação – para imóveis avaliados na faixa de R$ 650 mil a R$ 750 mil, com algumas exceções - aumentam de 9,45% para 9,90% ao ano, para as pessoas que não são correntistas da CEF.

Para os correntistas e servidores públicos, a elevação vai de 8,80% para 9,30% e de 9,30% para 9,80% ao ano, respectivamente. Nas operações do Sistema Financeiro Imobiliário (SFI) (imóveis residenciais com valores superiores), a taxa básica sobirá de 11% para 11,5% ao ano. Para correntistas e servidores, as faixas passarão de 10,2% a 10,7% para 10,5% a 11,2% anuais, respectivamente.

O aumento será mais salgado nos financiamentos de imóveis comerciais pelo SFI: de 12% para 14% ao ano. No 1º semestre, a CEF havia aumentado duas vezes os juros do SFH, além de reduzir, de 90% para 80%, a cota máxima de financiamento do imóvel no Sistema de Amortização Constante (SAC) e para 50% pela tabela Price. Trata-se uma baita agiotagem oficial nas operações pela tabela Price: a pessoa dá o imóvel totalmente em garantia, em troca de um financiamento máximo de 50%. Fora da CEF, o quadro é pior. Há bancos que só financiam 40%, mas exigem hipoteca de 100% do imóvel.

A outra notícia ruim é que, no esforço para reduzir os subsídios a serem bancados pelo Tesouro Nacional nos financiamentos do BNDES, o Conselho Monetário Nacional deve elevar dos atuais 6,50% ao ano para 7% ao ano a TJLP (Taxa de Juros de Longo Prazo), que balizam os financiamentos do BNDES. Como se sabe, boa parte dos recursos do Banco provém das arrecadações do Fundo de Amparo do Trabalhador, formado por recolhimentos do PIS, do Pasep e parte do FGTS. Outra parte vem de recursos fornecidos pelo Tesouro, diretamente, com a entrega de Letras do Tesouro Nacional ao BNDES, ou pela cobertura da diferença entre o retorno das operações com TJLP e os juros básicos da economia, pagos pelo Tesouro na captação dos papéis da dívida interna (basicamente a Taxa Selic).

A taxa Selic subiu este ano de 11,75% (a primeira alta para 12,25% foi em 21 de janeiro), para os atuais 14,25% ao ano e a TJLP só foi reajustada de 6,25% para 6,50% ao ano. O Ministério da Fazenda quer reduzir os subsídios elevando a TJLP para 7%. Mas o BNDES e alguns economistas acham que o papel da TJLP mais baixa seria justamente o de antecipar investimentos, que exerceriam o papel anticíclico na recessão que domina o país e ameaça se prolongar até 2017. Nos adendos da proposta do OGU para 2016 (que previa déficit primário de R$ 30,5 bilhões) está assinalada a informação de que o Tesouro terá um prejuízo de R$ 38, 6 bilhões com o custo dos empréstimos que faz ao BNDES e com o Programa de Sustentação do Investimento (PSI), no qual o Tesouro subsidia os juros que ficam abaixo da Selic.

Dessa forma, a desaceleração das concessões de crédito ao consumo no Sistema Financeiro Nacional, apontada pelos dados divulgados mensalmente pelo Banco Central, tem refletido essa redução da intenção do consumo e, naturalmente, a menor demanda por linhas de financiamento. A carteira de crédito com recursos livres de pessoa física apresentou crescimento de 4,7% nos últimos 12 meses finalizados em julho. Trata-se da mesma taxa de expansão observada desde meados do ano passado.

Apesar da manutenção da taxa de crescimento da carteira, é importante notar que a composição das linhas está mudando com menor propensão ao consumo, está se refletindo no crédito. O crescimento da carteira de pessoa física tem ocorrido basicamente em linhas relacionadas aos gastos cotidianos e não mais à aquisição de bens duráveis. Nos últimos 12 meses, as modalidades de financiamentos que mais contribuíram para a expansão do crédito foram: o crédito consignado e o cartão de crédito utilizado para compras à vista, com participação de 77,4% e 28,4%, no crescimento observado em relação julho de 2014. A reversão mais emblemática foi no financiamento para veículos, que registrou queda de 8,7%, em junho. Na compra de carros novos o tombo foi de 13%, denotando a dificuldade das famílias em assumir níveis elevados de financiamento. Para confirmar isso, o único segmento em expansão foi o do financiamento de carros usados – mais baratos – que cresceu 6,7%.

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