Artigo: We don't speak English - Por Adriana Albertal, fundadora da Seven Idiomas
19/09/2008
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O mercado mundial de serviços terceirizados offshore é um dos mais promissores. O setor, que fez da Índia um expoente, cresce 40% anualmente e movimenta bilhões de dólares. Uma área tão pulsante, obviamente atrai o empresariado brasileiro. Porém, apesar do pródigo desenvolvimento de empresas do ramo no País, elas têm enfrentado dois grandes problemas: escassez de mão-de-obra especializada e de profissionais com inglês fluente – este último um item fundamental para entrar no próspero mundo dos call centers e dos serviços de tecnologia.
A falta de uma segunda língua é considerada mais problemática do que a dificuldade de encontrar gente qualificada. Afinal, é muito mais fácil ensinar alguém a programar do que conquistar a fluência necessária para executar um trabalho que possa ser considerado de nível internacional.
E esse cenário mostra-se ainda mais crítico quando se vê que, mesmo crescendo bastante, esse setor não está desacelerando. Pelo contrário: há uma expansão e a própria Índia já dá sinais de saturação diante de tanta demanda. Mas em que região empresas americanas e européias que contratam outras estrangeiras em busca de custos menores vão procurar parceiros? No Brasil atual é que não deve ser, pois o País ainda não consegue se comunicar em inglês.
No mercado nacional de TI, a Associação Brasileira de Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (Brasscom) tem aproximadamente 40 grandes associadas, que juntas empregam cerca de 85 mil pessoas. Esse número poderia ser maior, mas o setor convive hoje com 40 mil vagas que não são preenchidas. Quando se encontra gente qualificada, vem o problema da língua. A questão toca em uma ferida brasileira: a carência educacional, que nasce no ensino fundamental e se arrasta à universidade.
Com esse gap na educação, levando em conta - para simplificar - apenas a questão da língua, o País perde oportunidades que trariam considerável desenvolvimento econômico. Por não falar inglês, o Brasil se isola e deixa de oferecer ao seu povo novos horizontes. O polêmico autor do livro "Saving The Americas: The Dangerous Decline of Latin America and What the U.S. Must Do" (aqui a publicação ganhou o título "Contos-do-Vigário"), Andrés Oppenheiner, causa arrepio com suas projeções econômicas para a América do Sul: declínio de sua participação no mercado global por conta de estagnação na educação. Oppenheiner aponta para uma diferença crucial entre sul-americanos e outras nacionalidades de destaque na economia global: "Enquanto asiáticos e europeus orientais estão formando mão-de-obra cada vez mais qualificada, a maioria dos países latinos não mudou seus ultrapassados sistemas educacionais". Como exemplo, ele cita a China, cujas crianças das escolas públicas começam a ter aulas de inglês na terceira série e com carga horária semanal de quatro horas.
No Brasil, sabe-se, quando há essa matéria na grade curricular, a qualidade de ensino é duvidosa e insuficiente. Saindo da área de TI, essa carência se manifesta e repercute também em outros setores da economia nacional.
Há poucos dias, estava em negociação com uma companhia de segurança marítima que pretende investir na formação de seus colaboradores para que eles adquiram fluência em inglês. Lá, eles perceberam que a falta do idioma pode prejudicar o crescimento da empresa. Segundo um dos gestores, o problema já começa na hora de fazer contato um parceiro estrangeiro. Momento em que a equipe comercial e gerencial - responsável pela captação de novos negócios - acaba sempre necessitando de um intérprete, o que prejudica muito a comunicação e o fechamento do negócio.
Apesar da "ajuda" do intérprete, uma empresa que não "fala" inglês vai limitar mais seu campo de ação, por exemplo, deixando de participar de feiras internacionais e assumindo uma posição mais passiva. No mercado global, é bom frisar, todos se comunicam nesse idioma. E o Brasil só vai melhorar a sua inserção global enxergando a necessidade de desenvolver suas habilidades de comunicação com o mundo.
Várias empresas já perceberam esse vácuo e estão se mexendo para mudar o quadro. Muitas delas já estão focadas no objetivo de desenvolver programas de ensino de inglês para seus colaboradores, direcionados à realidade específica da empresa dentro de seus próprios espaços. Mas falta muito mais. Moral da história: sem esse tipo de investimento, o bolo será repartido entre outros. Vamos ficar apenas com as migalhas?
*Adriana Albertal é sócia fundadora da Seven Idiomas
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